Embora a maioria dos jovens vá um dia se tornar um pai ou uma mãe, quase não há informação ou educação sobre a importância desta tarefa. Em exceção às parcas aulas de educação sexual, geralmente dadas por uma sexóloga, com foco na anti-concepção ou como evitar DST´s (Doenças Sexualmente Transmissíveis) e quase nada se fala de amor e do sexo como manifestação deste.

Será que com essa ausência de preparação e de foco sobre a unidade corpo-mente-sentimentos é possível alguma consciência sobre a importância deste período na vida de um ser humano? Quão possível é conceber, gestar e parir sem tantas intervenções médicas, exames e procedimentos “padrões”? Grande parte da informação que uma mãe recebe sobre a aventura da maternidade vem dos ginecologistas obstetras, que são os profissionais buscados pela maioria das mulheres quando se descobrem grávidas. A eles fica a tarefa de nos “conscientizar” de todas as mudanças que este novo momento trará para a mulher, o marido, para a família que nasce. Como a área de atuação de um médico passa principalmente pela bio-mecânica do corpo, e quando melhor, da fisiologia da gestação e parto ficam faltando muitas dimensões deste processo de dar à luz. A exclusão destas dimensões mais sutis acaba impelindo à “coisificação” do nascimento, em privilégio de agendas e protocolos hospitalares, resultando numa sedimentação dos próprios medos.

A busca por uma opção mais natural e saudável, traz mais consciência da maternidade como um processo contínuo e com participação ATIVA da mulher-mãe e culminará, naturalmente, em maior vínculo e presença no dia-a-dia da educação desta criança e até na busca por pedagogias que transcendam apenas a dimensão material, e que compartilhe os mesmos valores adquiridos durante todo o processo.

Uma das questões principais da Educação Pré Natal é quando começá-la. Como no nascimento um dos hormônios mais presentes e importantes é a Ocitocina, que é o hormônio do amor (tanto na mãe quanto no bebê), o momento da vida onde este hormônio está em alta é o da adolescência, que é a fase de enamoramento, fase em que nossos filhos começam a entrar agora. E que muitos pais se perguntam: o que fazer?
Bem, a criação dos filhos é um processo iniciático para os pais, cada etapa traz um novo desafio, pois o filho traz a nossa imagem enquanto criança para ser revisada, ano a ano. Por isso é importante termos consciência da nossa biografia para podermos perceber melhor e ajudar nas crises da criança, sendo que a filha mulher espelha mais fortemente a mãe e o filho homem para o pai (o abandono de pais de filhos homens é bem maior do que de filhas mulheres, donde podemos concluir que muitos não suportam o espelhamento). E o que não temos consciência, repetimos;  portanto é um ato de muito amor o das nossas crianças tirarem o nosso “lixo” debaixo do tapete para que o limpemos, isso nos torna melhores seres humanos e também melhores pais para eles.
Agora, todas nós estamos mais ou menos no mesmo barco. Digo mais ou menos, porque as experiências que cada uma viveu na adolescência são distintas. Muitas de nós teremos que limpar os resultados de falta de informação, preconceitos, abusos e tabus sobre o tema da puberdade e da sexualidade. Agora parece que é o contrário, muita informação e pouca sacralidade (olha que a palavra sacra vem do osso sacro, que fica na atrás da pelve!).
O que várias culturas fizeram e fazem para marcar este momento é celebrá-lo ritualisticamente. Os ritos são um meio de ligar os céus à Terra, trazendo uma experiência transcendente (que transcende o tempo-espaço). Eles nos ajudam a processar e digerir acontecimentos:  ganhos, perdas ou mudanças da fase. Eles nos atualizam e nos liberam para viver o que a vida é no momento, sem arrastar eventos passados ou postergar fases que já se encerraram. Eles trazem o bem, pois o mal é apenas o bem fora de época, como dizia Rudolf Steiner. Daí a necessidade de nos atualizarmos e processarmos nossas vivências com ajuda de ritos. Existem ritos para as mais variadas experiências, alguns instituídos socialmente, como batismo, casamento, bodas, funeral. Mas alguns nos faltam e precisamos criá-los. E a psique espera pacientemente  que o façamos, ainda que levem anos. Conheço um caso de uma senhora de 84 anos que ritualizou 2 abortos que realizou na juventude e chorava como se tivessem ocorrido ontem.
Em algumas culturas, como no povo Apache, a preparação do ritual para a menarca das meninas que menstruaram num determinado ano demora 1 ano! A mãe prepara uma “medicine bag” com ervas e folhas que ela poderá usar para cuidar da família que ela irá constituir. Havia também nas culturas pré-cristãs, o ritual da tenda vermelha, onde as mulheres menstruavam juntas e se uniam para compartilhar histórias do feminino. Ali as informações eram passadas e muito da história que conhecemos desta época se deve a estas tendas.
Também os meninos necessitavam rituais para a passagem para a vida adulta, talvez ainda mais do que as meninas, pois o mundo masculino é menos falado do que o feminino. Eles precisam viver as coisas juntos. Quantas vezes algo é resolvido entre pai e filho enquanto constroem algo juntos: um barco, uma fogueira, uma pipa. Anos de abismo podem se dissolver num encontro assim…
Os povos antigos celebravam tais rituais de passagem, pois não podiam se dar ao luxo de não contarem com os homens na tribo. O menino passava por um ritual do tipo: 3 dias e 3 noites na mata, sozinho ou com companheiros da mesma idade (supervisionados sem saberem pelos homens adultos) e ao voltarem não dormiam mais com as mães, e passavam a chamá-las pelo nome. Os pigmeus também tinham uma prática de serrar os dentes para que estes ficassem pontudos, só assim eles eram considerados homens pelas mulheres. Eles tentavam, não conseguiam devido à dor, até que um dia tinham mesmo que permitir o lixamento dos dentes, pois o desespero para se tornar homem nos braços de uma mulher era maior do que a dor.
E nós, como sociedade, estamos nos dando esse luxo! Quantos adultos-infantis temos hoje?? Homens e mulheres. Os “kidults” na Inglaterra, que voltam a morar com os pais depois de separados, com 35, 40 anos de idade. Onde estamos errando?
Eu costumo exemplificar este fenômeno da seguinte forma: todos nós temos duas “pilhas” ao nascermos, uma é enchida na infância (ou deveria ser), que é a pilha do “ser filhote” outra vem vazia e cabe a cada um enchê-la, é a pilha do “adulto”. Na medida em que crescemos, precisamos ir transferindo energia de uma pilha para outra. Para sairmos da casa dos pais precisamos de um pouco de energia na pilha do adulto, senão nem saímos. Para casar, para ter filhos, para criar os filhos com bastante energia e atenção, cada vez precisamos transferir mais e mais energia. E muitas vezes os próprios pais não facilitam, pois ter um filhote em casa, embora a maioria reclame e diga que acha ruim, é uma espécie de “elixir da juventude”. Então, para isso é preciso determinação, consciência e vontade. Contamos para isso com auxílio de terapias, grupos de estudo, conversas, etc. Nos apoiando mutuamente, com ajuda de outros que já trilharam o caminho, podemos encontrar o nosso!
Prontos ou não, está na hora de  ajudar  nossos filhos a começarem a encher as suas pilhas de “adultos Junior” (talvez isso também sirva para o nosso adolescente interior).  A nossa proposta é ajudar os pais a apoiarem seus filhos nesta passagem, pois vivenciarmos isso sozinhos é muito mais difícil e nossa sociedade não tem rituais de passagem da puberdade estabelecidos (à exceção de algumas culturas, como a judaica, que tem o “bar-mitzvá” quando o menino completa 13 anos).

O que buscamos com nossas sugestões de Ritos de Passagem modernos (“De Mãe para FIlha” e “Passagem de Bastão”) é conseguir que estes adolescentes internalizem, ainda que minimamente, as figuras exteriores do pai e da mãe. A menina, cuja figura de identificação maior é a mãe, busca imitá-la e é a mãe que ela precisa internalizar principalmente. E o menino vive o mesmo com o pai. Porém, com o tipo de trabalho exterior e intangível (na maioria à frente de uma ou mais telas) que desempenhamos nos dias de hoje, pode ser bastante difícil para as crianças imitarem um adulto que eles nem sabem bem o que faz nem como faz.