Esta noite tive um sonho agitado e inspirador. no sonho, eu estava num congresso de humanização do nascimento, na Espanha, assistindo a uma performance tocante, executada pelos organizadores do Congresso. Pensava como poderíamos fazer algo semelhante no Brasil, tocando os congressistas que aqui estivessem, com algo bem forte e profundo. E, magicamente, eu já me encontrava neste congresso no Brasil, sentada na platéia e lá me pedem que eu puxe um côro, um côro de paz. Então começo a bater palmas, lentamente, e apenas pronunciar a palavra PAZ, lenta mas firme e claramente. Uma palma em silêncio, a outra acompanhada da palavra PAZ. Na medida em que repetíamos – a esta altura todos já acompanhavam – a palavra paz, foi vindo a percepção de que esta palavra, em português (é incrível essa singularidade de cada língua com seus sinônimos, homônimos e palavras gêmeas  –  e sempre acho que isso diz algo a respeito de um povo)  tem o mesmo som da palavra PAIS.   Não existe diferença no som e de fato não existe quando se trata do significado mais profundo das duas palavras. Pois não pode existir PAZ sem PAIS.  Nem PAIS de verdade sem um pouco de PAZ interna.

Por isso a necessidade de APAZIGUARMOS.

Apaziguar , ao contrário do que parece, não é ficar parado, imóvel . A verdadeira paz nasce de uma vontade profunda de mudar, de fazer diferente, de dar aquilo que nem mesmo recebemos, de amar tão profundamente o mundo a ponto de dar-lhe o melhor presente que nada no mundo pode comprar: seres humanos íntegros, amorosos e fraternos.

Em seu livro “Parenting for a peaceful world”, Robin Grille, faz uma análise histórica de como a humanidade tem vivido essas duas palavras ao longo dos séculos. Como civilizações bélicas se erguem a partir de tipos de paternidade cruéis e abusivos, e como civilizações de paz se tornam possíveis a partir de cuidados parentais efetivos e desde o início da vida no útero.

Ele classifica os vários tipos de “parenting” (pa/maternagem – em português não temos uma palavra única para isso – outra particularidade interessante da língua). Os primeiros são mais primitivos e cruéis, e são os que a humanidade viveu por mais tempo. São eles: modo infanticida – dá pra imaginar o que pode ser; no livro é de revirar o estômago; modo abandonativo; modo explorativo;  modo socializante e modo “ajudador” – helping mode). Vivemos centenas de anos nos primeiro e segundo. Evoluímos um pouco mais para o 3º e digamos que a criança mesmo só começou a existir (direitos da criança escritos em 1986) no século XX. Antes disto, esta era apenas um pequeno adulto defeituoso. Claro que ainda vivemos, em se tratando de todos os recantos do planeta, todos esses modos. Mas a grande massa vive mais no penúltimo. E agora está passando por um enorme desafio.

Nosso desafio – e disso depende a continuidade da espécie – é passar do modo socializante para o modo “ajudador”. No modo socializante, os pais educam seus filhos para que estes atendam à demanda da sociedade, se adaptando e se encaixando para serem aceitos dentro do status quo, apascentando assim a ansiedade dos próprios pais, ligada à sua ferida de infância: o medo da não aceitação. Já o modo “ajudador”, nos convida, ao cuidar desta ferida, a dar um enorme salto e sermos capazes de olhar para o novo ser que vem para o planeta como alguém que já traz a sua sabedoria e precisa de ajuda para desenvolver plenamente suas capacidades. Cuidar da ferida demanda coragem e disposição, mas o resultado compensa.

O “Princípio da Educação” escrito por Rudolf Steiner, define bem a necessidade desta passagem:  “ Não devemos nos perguntar o que o ser humano precisa saber ou dominar para viver dentro da estrutura social que aí está, mas devemos perguntar-nos o que está predisposto nesse ser e o que pode ainda ser desenvolvido. Assim será possível sempre, acrescentar à estrutura atual o que fazem dela os seres integrais que nela ingressam, e não se fará da geração que vem crescendo, o que a estrutura social vigente quer fazer dela.”